Por trás da Loja de Departamento mais Chic e Antiga de Paris

  • Salão central em vidro e ferro fundido (foto de divulgação).
  • Cave da Épicerie (3.000 rotúlos em 550m2)

Na minha opinião o Bon Marché é o mais histórico dos grands magasins de Paris. Seu passado, contudo, nos revela uma história bem diferente da sua proposta atual.

Le Bon Marché hoje é sinônimo de luxo. Um verdadeiro refúgio para turistas que buscam mimetizar com os locais ou para os próprios parisienses que não querem se misturar com uma multidão que insiste em tornar seus magasins e a sua cidade patrimônio “público” da humanidade.

Por outro lado, chegar no Bon Marché é quase como entrar no paraíso. O Éden das compras. As melhores marcas, atendimento de ponta e todos os andares vazios (apenas algumas mulheres, que de tão magras, serão facilmente ignoradas). Mas o paraíso não é para todos, certo? Para mim, durou até olhar a décima etiqueta em algum casaco lindo que nunca usaria nos trópicos. Como resumiu bem minha cunhada: quase fomos ricas no Bon Marché.

Quase!

O Bon Marché atual está longe de ser bon marché (barato). Ao contrário, é uma legítima amostra estilo de vida faustoso do Rive Gauche (margem esquerda do rio Sena). Nada contra. Cada um com o seu nicho de mercado.

Lá, todos podem entrar e olhar, ninguém se importará com você. Nós entramos. A primeira impressão foi simples e matemática: Le Bon Marché = luxo. Já a segunda chegou em forma de dúvida: será que esse lugar foi sempre assim? De onde veio esse nome? Barato? Estranho, não?

Por trás do véu de Seda da Hèrmes

Comecei a pesquisar, mas a resposta não veio em língua portuguesa. Foram pelo menos 30 post falando exatamente a mesma coisa: este é o lugar das marcas badalas, do luxo exclusivo, ou ainda, “onde as parisienses compram”. Pensei: é só isso?!

Tinha mais coisa para a gente descobrir. Dito e feito. Bastou afastar um pouco o véu de seda da Hermès para ver. Com ajuda de fontes em outras línguas, descobri uma história bem mais interessante.

Muito antes dos grupos empresariais de luxo chegarem com tudo no mercado parisiense, existiu um vendedor de tecidos de espírito inquieto. Ele se chamava Aristide Boucicaut, e a história do Bon Marché é, em verdade, a história desse homem e de sua mulher, Marguerite Boucicaut (antes Marguerite Guérin).

Muito jovem Boucicaut deixou a Normandia seguindo um comerciante ambulante. Com 19 anos chegou em Paris e, depois de um período de difícil adaptação, arranjou um trabalho como vendedor em uma loja chamada Le Petit Saint Thomas, Rue du Bac. É ali que ele vai aprender algumas práticas comerciais inusitadas para época: vendas pelo correio, liquidações, exposições de arte e até passeios em burricos organizados para os filhos dos clientes.

Alguns anos após o encerramento da Le Petit Saint Thomas, Boucicaut começa uma parceria com o dono de um magasin chamado Le Bon Marché Videau, Paul Videau. Ele aperfeiçoou as práticas aprendidas na loja anterior e fez com que o Bon Marché Videau tivesse um crescimento espetacular. Em 1863, depois de economizar uma boa quantia de dinheiro, Boucicaut já era o dono único do magasin: Le Bon Marché.

O momento era de estabelecimento do capitalismo industrial na França, e Boucicaut desempenhou um papel crucial neste cenário. Sua estratégia era inovadora. Ele aperfeiçoou o que era feito em pequena escala no Le Petit Saint Thomas e aplicou em larga escala no Le Bon Marché. Foram grandes inovações!

Ele foi o primeiro a receber sua clientela sem qualquer obrigação de compra. Ideia genial! E ainda, no que diz respeito aos empregados, incentivou-os com abonos por méritos e não por antiguidade. Criou também uma espécie de previdência e aposentadoria para seus empregados – na época uma prática completamente singular. Seu objetivo era não apenas fidelizar os consumidores, mas também os empregados.

Outro detalhe curioso, o prédio do Le Bon Marché que conhecemos hoje foi inaugurado somente em 1887. Pela primeira vez um prédio inteiro será construído com uma finalidade única: ser um endereço dedicado ao comércio de novidades.

Boucicaut chamou Louis-Auguste Boileau como arquiteto, um inovador (como ele próprio) e também o engenheiro Gustav Eiffel (reparem que isso foi pré-torre). O resultado é uma obra-prima do Art Déco. Um casamento perfeito e elegante entre a força do ferro e a leveza do vidro. Infelizmente, Bocicaut não viveu para ver o resultado de sua obra, que continuou florescendo sob a administração de sua forte esposa.

Aristide Boucicaut foi o precursor e inspirador para outros grandes comerciantes, entre eles, Ernest Cognacq (com o La Samaritaine), Jules Jaluzot (Le Printemps). Ele foi o grande inaugurador da era dos Grands Magasins parisienses, um modelo de comércio importado para o resto do mundo. A grande ancestral dos temidos e adorados shopping malls.

Bom, isso foi o que descobri depois que percebemos que não seríamos ricas no Le Bon Marché. Uma vírgula interessante para nos ajudar a pensar sobre como consumimos hoje. E, mesmo que a proposta atual do Le Bon Marché esteja muito longe daquela inicial, é inusitado lembrarmos um pouco desse espírito “Rive Gauche” parisiense inicial. 

Para entrar no clima!

Esse vídeo mostra um pouco do começo do Bon Marché. Está em francês, mas vale ver pela reconstituição da época. 😉

Aproveite!

La Grande Épicerie de Paris: para compras gulosas. Fica em um prédio do lado ao do Bon Marché original. Faz lembrar do Eataly em NYC? É a mesma proposta só que maior.

Restaurantes do Bon Marché: são dez opções. Vale entrar na página para checar se tem algum que te interessa.

Caminhada artística no Magasin: isso mesmo, mantendo seu histórico de flerte com as artes, o Bon Marché oferece um mapa no seu site com a marcação de todos os pontos da loja com artes em exposição.

Para saber mais: Aristide Baucicaut: du “Petit Saint Thomas” au “Bon Marché” (Aristide Boucicaut: do Petit Saint Thomas ao Bon Marché). Texto em Francês escrito por Gerard Nedellec.

Le Bon Marché
Endereço: 24, Rue de Sèvres
75007, Paris
Metrô: 10 e 12 (Sèvre Babylone)
Ônibus: 39, 63, 68, 70, 83, 84, 94

4 comentários

  1. olga m. falcon disse:

    Adorei muito Raphinadas. Conheci há pouco tempo.
    Ouvi uma vez que no Le Bon Marché, pela primeira vez, foram apresentadas mercadorias com etiqueta de preço. Será verdade?

    1. Raphinadas disse:

      Olga,

      Que bom que gostou! 😉
      No site do próprio Bon Marché eles contam isso, então imagino que seja verdade.
      Se você quiser visitá-lo, a informação está em francês, mas é o que dizem.
      http://www.lebonmarche.com/decouvrir/histoire.html

      Continue acompanhando.
      Abs
      Rapha

  2. Mônica Hiromi disse:

    Muito bom conhecer um pouco da história!
    Parabéns pela pesquisa! 🙂

    1. Raphinadas disse:

      Mônica,

      É tão bom ter esse tipo de retorno. Muito obrigada.
      Mais histórias chegando por aí. 😉
      beijos,
      Rapha

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