O Mundo On-Line Pede Desapego

  • Palavras Love sunset

Eu estava em dúvida sobre o que fazer a respeito de um episódio pessoal e quase decidida a deixar passar, mas então ontem de noite li uma frase que mudou tudo. Como para mim sempre existe um propósito no cosmo, encarei como um sinal e resolvi compartilhar com vocês o assunto.

Aqui vai a frase:

“Uma receita é muito mais fácil de copiar que um negócio. Isso não deveria assustar o Mario Batali? Por que ele vai para a TV e mostra como ele faz o que faz? Por que ele coloca todas suas receitas num livro para qualquer um comprar e replicá-las? Porque ele sabe que aquelas receitas e técnicas não são o suficiente para arrasá-lo no seu jogo. Ninguém vai comprar um livro de receita e abrir um restaurante na esquina e tirá-lo do mercado. Não funciona deste modo. Ainda assim muitos no mundo dos negócios pensam que isso pode acontecer caso seus competidores saibam como eles fazem seu trabalho. Deixem de bobagem.”

Esta frase está no livro Rework (Retrabalho) de Jason Fried e David Hansson. Sabe quando a gente lê algo e cai como uma luva? Te deixa cheia de vontade de gritar: “Amém! Quero mais disso no mundo!” Foi isso que me aconteceu ontem. Por isso, estou passando a bola para vocês. Vamos compartilhar! Chega de possessividade e preocupações pequenas.

Eu explico melhor. Há alguns dias recebi um e-mail de uma pessoa que tem blog e cujo trabalho sempre admirei. Ela dizia se sentir lesada por mim. A motivação foi eu ter pedido um roteiro personalizado a ela e, algum tempo depois (um ano), começar a oferecer um serviço similar. A tônica, embora educada, dá a entender que meu propósito seria aproveitar a experiência para copiar o trabalho.

Detalhe: eu não fiz o roteiro com esta pessoa. Não tive acesso ao seu trabalho, nem nada – por que tanta mágoa, não é?

Seguem os pensamentos que tive a partir deste episódio e os motivos da minha revolta.

Para entrar no clima! 😉

Compartilhar é a minha melhor propaganda

Quando recebi o e-mail meu primeiro sentimento foi de decepção. Fiquei chocada de ver alguém que admirava tão apegada a algo completamente inútil e pequeno.

Quando eu deixo algo on-line, ou entrego um roteiro, eu sei que aquilo não me pertence mais. É obvio que não quero ser plagiada (isso é outra história), mas se alguém sentiu vontade de blogar ou se inspirou depois de conhecer meu trabalho: “Oh! Happy day!”. É um sinal de que estou fazendo algo certo. Bom para mim, não acham?

O que já está feito é uma coisa estática, parada no tempo e pouco pode oferecer à “concorrência”. O verdadeiro diferencial do meu trabalho sou eu mesma, a minha visão de mundo, a minha dedicação, minha atualização e a minha forma de interagir com o viajante em questão. Isso não se replica e com certeza não pode ser extraído de um roteiro já pronto.

Mesmo assim, se alguém acha que vai tirar alguma vantagem divulgando um roteiro personalizado já feito para outra pessoa, isso não me interessa. Esse tipo de pessoa não faz parte do público que quero cativar e trabalhar. Deixa ela lá achando que está tirando vantagem. Eu quero pessoas engajadas com seu consumo perto de mim, não oportunistas.

Consumir o que se vende

O segundo ponto, e o que mais me irritou, está no fato de que realmente acredito no produto que vendo – roteiros e serviços de viagem personalizados. Na diferença que faz na viagem de qualquer pessoa.

Agora diga-me, você confiaria em um padeiro que não come pão? Em um vinicultor que não é apaixonado por vinhos? Em um escritor que não gosta de ler? Eu não.

Eu sempre consumi e vou continuar consumindo serviços personalizados de viagens. Vocês não imaginam quantas pessoas generosas conheci por causa de blogs, programas insólitos, tours e roteiros que contratei. Hoje em dia já encaro isso como parte do meu trabalho, mas certamente é um grande prazer que tenho na minha vida. Inclusive, uma das minhas grandes preocupações é testar serviços antes de recomendá-los.

No mais, vamos falar sério, que tipo de pensamento é esse? Por que eu ofereço (ou quero oferecer) um produto não posso consumi-lo? “Alguém avisa para o Pierre Hermé que ele está proibido de comprar os macarons da Ladurée, por favor!”. Eu me recuso a ficar com medo de entrar em contato com meus pares, sobretudo para contratar os seus serviços.

Como diz minha sábia amiga Mirella Camargo: “tem amor para todo mundo!”

“Um bom artista não copia, ele rouba!”

Estas são as palavras de Picasso “roubadas” por Steve Jobs, depois “roubadas” por Austin Kleon, e agora “roubadas” por mim.

Você poderia me perguntar: mas quando você pediu o roteiro para a tal pessoa, queria saber como ela trabalhava? Infelizmente, não! Minha motivação foi pura admiração (que tristeza) e vontade de aproveitar os benefícios que um roteiro personalizado traz.

No entanto, ainda que eu quisesse isso, não consigo ver isso como algo negativo. Do meu ponto de vista, estar antenada com o trabalho dos profissionais da minha área só pode me enaltecer, já que mostra uma preocupação em me aprimorar, além disso, ressalta a qualidade destes profissionais que servem de inspiração. E todos crescem juntos.

Aliás, desejo que meus clientes e leitores gostem disso em mim. Esse é certamente um dos grandes motivos pelos quais eu acompanho blogs e profissionais, não só no Brasil, mas em outros países e que escrevem em outras línguas. Enriquece a experiência além de ser uma ótima oportunidade para parcerias futuras (#ficadica).

Para conhecer mais:

Para encerrar, deixo aqui algumas fontes de profissionais que pensam como eu. Pessoas compartilham seus conhecimentos on-line e usam isso como ferramenta de divulgação de forma corajosa e criativa.

1) Vídeo de Austin Kleon no TED (com legenda)

2) Brené Brown – O poder da Vulnerabilidade (com legenda)

Esse vídeo é sempre uma motivação para compartilhar e se mostrar através do seu trabalho.

3) Love Being Boss – Podcast para Empreendedores Criativos (inglês)

– Podcast “Giving it all away: neste podcast elas falam sobre empreendedores on-line que não tem medo de compartilhar conhecimento

4) Austin Kleon – Roube como um Artista (em português)

5) Rework – Jason Fried e David Hansson (a versão aqui é a traduzida para o português)

6) The Creative Habit – Twyla Tharp (em inglês)

8 comentários

  1. Mônica Hiromi disse:

    Concordo com você! Eu também ficaria super orgulhosa e motivada se soubesse que sou admirada e até inspiro o trabalho de outra pessoa. A “competição” é saudável, nos impede de congelar e parar no tempo. A troca de ideias, interação entre os pares agrega e nos faz crescer. Parabéns pelo desabafo. Tenha certeza que seu trabalho encanta e cativa pois é feito com muito amor! E amor, sim, tem amor pra todo mundo! Basta saber receber 😉

    1. Raphinadas disse:

      Mônica,

      Amei suas palavras. Você também é uma inspiração! É um prazer escutar seus comentários aqui, e uma delícia ter a oportunidade de planejar um roteiro para/com você.
      Abraços,
      Rapha

  2. Angela de Assis disse:

    Fiquei pensando se seria realmente um desabafo ou uma constatação, uma análise sobre um fato. É certo que não temos controle sobre a pequenez da mentalidade de algumas pessoas. Fazer o quê? Que culpa tem você se ela é uma profissionnal limitada ao próprio umbigo? Então penso que seu blog tratou mais sobre uma constatação, brilhante aliás. Bjs

    1. Raphinadas disse:

      Mamacita,
      Não sei se foi uma constatação. O que não falta é gente pensando como esta pessoa. Eu até entendo, porque desapegar é bem difícil, mas o que ganhamos é tão maior. Não é? Fato é que não temos controle, a gente tem que confiar nos outros. Acho que retorno vale muito a pena. bjs

  3. Viviane da Costa disse:

    Rapha, que curioso esse seu desabafo. Nessa semana mesmo estava pensando como um “mesmo produto” pode ser reinventado e vendido de formas diferentes, mesmo sendo “a mesma coisa”. Eu pensei nisso justamente fazendo uma avaliação do blog do que eu tenho. E o que nós mais fazemos lá é entrar em contato com pessoas com projetos parecidos. É o que mais tem! Nós, felizmente, só encontramos pessoas dispostas a dividir e aprender. Assim, todo mundo ganha, né? Não entendo quem faz o contrário, mas acho que a gente tem que ignorar essas pessoas, fazer o q? No mais, já conhecia o Austin Kleon, que é ótimo, e adorei as outras dicas que você deixou aqui! Siga em frente. Com certeza você tem muuuuito a oferecer para quem buscar seu serviço! Bjs

    1. Raphinadas disse:

      Vivi,
      O seu blog é lindo! Essa nossa troca é prova de que compartilhar é maravilhoso. Fico muito feliz por te acompanhar e ter você por aqui. Ps.: Austin Kleon é uma referência incrível, não é? Veja o vídeo da Brené Brown, acho que você vai adorar!
      Beijos viajantes 😉

  4. Jaysa disse:

    A decepção é o que mais incomoda né? Mas, pense nas pessoas incríveis que ainda vai alcançar com seu trabalho e aquelas que já estão na sua vida. Adorei o “tem amor pra todo mundo”

    1. Raphinadas disse:

      Jaysa,
      Muito bom ver você aqui. Obrigada pelas palavras. Tem muito amor mesmo! <3

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