Lisboa na Mesa: “O Poleiro”, um tesouro da cozinha portuguesa no Entrecampos

  • Proprietário e nosso professor: Senhor Manuel no seu restaurante "O Poleiro"
  • Os bolinhos de bacalhau mais perfeitos do mundo!
  • Amêijoas à Bulhão Pato
  • A entrada do restaurante. Onde tudo começou.
  • Peixinhos da Horta
  • Pimentos de Padron Fritos
  • Cogumelos Silvestres
  • Gambas al ajillo
  • Uma coleção de elogios.
  • Arroz de garoupa com gambas
  • Arroz de polvo atabafado em azeite no forno
  • Cabrito frito com açorda de coentros
  • Pudim Abade de Priscos; Barriga de freira e Doce de abóbora e coco da casa

English version in the end of this post.

“Pois o abade deu-nos um rico jantar. A cabidela estava de mão-cheia. Eu carreguei-me um bocado – disse o cónego rufando com os dedos na capa do Breviário”
Eça de Queiroz. O Crime do Padre Amaro. Pág. 153.

Bruno Moreira-Leite e Raphaella Perlingeiro

Não se deixe enganar pelo nome! Este se explica pelo fato de naquele endereço ter funcionado uma mercearia que mantinha suas aves instaladas num “poleiro” onde hoje se encontra a cozinha da casa. Daí a ideia para o estabelecimento do senhor Manuel Martins que, juntamente com seu irmão Aurélio e seu filho, tocam essa empreitada.

Da vitrine, que expõe as preciosidades da casa (cortes de novilho, borrego e cabrito, além de peixes e mariscos muito frescos), já se tem uma amostra do que estar por vir: produtos de excepcional qualidade, preparados com maestria pelas mãos do cozinheiro e conforme determina a tradição.

Entradas

Para começar, o Sr. Manuel sugeriu-nos um passeio por alguns petiscos. O “bolinho de bacalhau”  – e não “pastel” como dizem os lisboetas – foi, sem sombras de dúvidas, o melhor que comemos no além-mar. Bom balanço de bacalhau e batatas, tempero no ponto e, o que mais nos impressionou, fritura perfeita feita em azeite de oliva de maneira a se obter uma crosta dourada, uniforme e crocante.

As “amêijoas à Bulhão Pato” estavam excelentes, puxadas no alho, azeite e coentros, exatamente como manda o figurino. Uma dica: nunca deixe o caldo dos moluscos voltar para cozinha, uma verdadeira heresia no nosso ponto de vista. Aproveite para embebedar o pão nesse pedacinho do mar. “Il faut saucer“, como diriam os franceses.

Mas não paramos por aí: ainda vieram alguns “peixinhos da horta” (vagens passadas em polme e fritas), uma “seleção de cogumelos silvestres” salteados; “pimentos de padron fritos” e “gambas al ajillos“, que são camarões refogados em azeite de alho com um toque do suco do limão. Estava tudo, como os portugueses diriam, “divinal”!

Principal

Foram servidos três pratos aos comensais: “arroz de garoupa com gambas“, “arroz de polvo atabafado em azeite no forno” e “cabrito frito com açorda de coentros“. Para nós, o ponto alto foi sem sombra de dúvidas a garoupa: arroz carolino caudaloso, peixe fresquíssimo e aquela gelatina que a garoupa sabe emprestar com maestria a qualquer preparo – e que o cozinheiro soube aproveitar com destreza, uma vez que esta nos foi servida ainda com a pele. São esses pequenos gestos que mostram a sua competência. O polvo desmanchava na boca. Por fim, o cabrito super macio, de sabor delicado, surpreendente para esse tipo de carne que costuma ter um paladar bastante pronunciado. Isso sem falar na açorda, que mesmo não sendo um dos acompanhamentos preferidos do Bruno, estava riquíssima.

Vinhos

Nós degustamos duas garrafas do vinho “Consensual“, selecionadas pelo próprio sr. Manuel com a intenção de nos apresentar o que “o Douro tem de melhor”. Foram duas reservas da Casa Torres, sendo que o tinto, um 2011, segundo ele, foi uma das melhores safras de Portugal. E realmente foi uma escolha primorosa, um vinho redondo que junto com o cabrito fez uma harmonização perfeita.

Com muita relutância, resolvemos pular os queijos. Uma pena, porque pudemos perceber que a casa conserva algumas preciosidades para esse serviço.

Sobremesa

O tradicional “doce de abóbora e coco da casa“, fatias do “pudim Abade de Priscos” (feito com gemas de ovo, calda de açúcar, toucinho ou presunto e especiarias), e ainda, uma porção de “barriga de freira“, aqui feita com amêndoas moídas, gemas, calda de açúcar e miolo de pão. O nosso doce favorito? A barriga de freira, puxada na canela, pungente e aromática. Por sinal, bem diferente da versão que conhecemos pelo Brasil. Uma ênfase deve ser dada ao “Abade de Priscos”: podemos dizer que foi o menos doce que já provamos, mais um gol de placa da casa.

Para nós, a doçaria portuguesa é como uma espécie de avó: sempre a espera para açucarar as nossas vidas, nos poupando, mesmo que por um breve momento, das misérias da existência. Poderíamos dizer, por analogia, que assim foi toda a nossa experiência em “O Poleiro”: uma refeição de domingo em casa de avó, pautada pela fartura, pela sabedoria no preparo dos pratos, pelas histórias compartilhadas e pelo exercício da convivência à mesa.

O Poleiro

Endereço: Rua de Entrecampos 30
Telefone: 35 1 217976265
Custo: $$
Reservas: restaurante.opoleiro@gmail.com
Horário: seg-sab 12h15 a 15h e 19h15 a 23h

Curiosidade: a casa faz 30 anos em outubro de 2015.

Essa experiência foi apoiada pelo restaurante O Poleiro em Lisboa.

————————————

Lisbon is served: Poleiro – A treasure of the traditional Portuguese cuisine in Entrecampos

“So the Abbot gave us a rich dinner. The cabidela was very well done. I served myself a generous portion – said the canon drumming his fingers in his prayer book”. Eça de Queiroz. The Crime of Father Amaro. Page 153.

Bruno Moreira-Leite and Raphaella Perlingeiro

Don’t let yourself be fooled by the name of this place! “Poleiro” (that being a perch for poultry and other kinds of birds) is explained by the fact that the building used to be a grocery store and the chickens were kept where today is the kitchen of the house. From that came the idea for Mr. Manuel Martins’ restaurant, managed also by his brother Aurélio and his son.

At the front window, where they display some of the house’s gems (steer, lamb and goat cuts, but also fresh fish and seafood), you can already have a glimpse of what is to come: products of exceptional quality, prepared by masterly hands and all according to tradition.

Starters

To begin, Mr. Manuel suggested some appetizers. The codfish cakes – “bolinhos”, not “pastéis” (pasties) like Lisbon locals usually say – were, beyond any doubt, the best we had in Portugal. A good balance of cod and potato, flawless seasoning and, what impressed us most, a perfect frying in olive oil, giving the cakes a golden, uniform and crunchy crust.
The Bulhão Pato Clams were also excellent, seasoned with garlic, olive oil and coriander – exactly as tradition dictates. A tip: Do not allow the broth go back to the kitchen. That would be a heresy! Instead, soak some bread on this little taste of the sea. Il faut saucer, as the French would say.
But, we didn’t stop there! Afterwards, we got some “peixinhos da horta” (fresh green pods fried tempura), a selection of sauté wild mushrooms, “pimentos de padron fritos” (fried green pepper) and “gambas al ajillos”, pan-seared shrimps with olive oil and lemon.
As the Portuguese would say, everything was “divinal”!

Main Course

We were served three courses: “arroz de garoupa com gambas” (shrimp and grouper rice), “arroz de polvo atabafado em azeite no forno” (octopus oven rice) and “cabrito frito com açorda de coentros” (lamb in coriander bread sauce).

To us, the highlight was certainly the grouper. A good carolino rice, remarkably fresh fish and that subtle gelatin released by the grouper that can provide an extra attraction to any dish – which, by the way, the cook was skillful able to use, as the fish was served with its skin still on.
These are small things that show his quality and skill.

The octopus was melting in our mouths. The lamb was super soft and with a delicate flavor, something surprising for this kind of meat to which we usually expect an accentuated taste. The açorda (bread sauce) was really good, even though it is not one of our favorite side dish.

Wines

We had two bottles of “Consensual”, selected by Mr. Manuel himself, who wanted to show us the “best D’ouro could offer”. He gave us two reserves form Casa Torres and said that the 2011 red we had came from one of the best years Portugal ever had. It was indeed a prime choice, giving us a smooth wine that joined perfectly the lamb we were eating.

We need some room for desert, so, with a lot of second thoughts, we decided to skip the cheese selection. It was a pity, because we could see that the restaurant had some rare gems in this particular area.

Deserts

We had many choices. The traditional “doce de abóbora e coco da casa” (made from pumpkin and coconut), slices of the famous “pudim Abade de Priscos” (made with egg yolks, sugar syrup, bacon or ham and spices), and yet a good serving of “barriga de freira” (made there with grinded almonds, yolks, sugar syrup and bread).

Our favorite? The “barriga de freira” – strong in cinnamon, pungent in flavor and aromatic. By the way, this was a very different version from that which we are used to find in Brazil.

However, a special place must be reserved for the “Pudim Abade de Priscos”, as we can say that it was the least sweet we ever tasted, which is actually another goal scored by the house.

To us, the Portuguese deserts and pastry is like a kind of grandmother: always waiting to put some sugar in our lives, sparing us, even if for a brief moment, of the miseries of life. We could say, by comparison, that the whole experience in the Poleiro was just like that: a Sunday meal in our grandmother’s house, marked by bountifulness, cooking wisdom and by the sharing of histories and experience by the table.

O Poleiro
Address: Rua de Entrecampos 30
Phone: 35 1 217976265
Cost: $$
Reservation contact: restaurante.opoleiro@gmail.com
Time: seg-sab 12h15 a 15h e 19h15 a 23h
Interesting: a casa faz 30 anos em outubro de 2015.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *