Leblon: pode me chamar de Carioca

  • Praia vazia e deliciosa.

“Pode me Chamar de Carioca” é uma série de posts sobre a difícil arte de existir no mundo como carioca. Tudo nela é fruto de uma percepção particular, por isso aviso: é bem possível que completamente longe da realidade de muitos e certamente distorcida pela minha subjetividade. 

Leblon

Uma coisa é certa, ame ou odeie, o carioca terá sempre alguma opinião sobre o Leblon.

Ele é o bairro mais cobiçado da cidade. Isso atualmente. No tempo dos meus avós, por exemplo, eles foram considerados loucos por trocarem o requinte de Botafogo por um matagal chamado Leblon. Mas a roda viva girou. Hoje, os preços dos imóveis no Leblon estão astronômicos (talvez por isso a qualidade das calçadas seja como superfície da lua?) e o bairro virou um reduto de gente espontaneamente montada; das grifes que vendem um luxo discreto e de ótimos restaurantes. Tudo de bom, tudo bem ordenado.

O carioca, no alto do seu bairrismo, logo aprende que deve se posicionar. Ou o Leblon se torna a localização geográfica dos seus sonhos mais íntimos, ou será fonte de grandes ódios e reverberações amarguradas. Nesse último caso, o bairro consegue a proeza de ser a causa de boa parte dos problemas da cidade.

Fica a pergunta: por que o Leblon virou o paradigma? Afinal de contas, existem outros bairros caros e com atrativos similares na cidade, certo?

Meu palpite? Digo que isso acontece graças a nossa paixão por novelas. O Leblon nunca será o mesmo depois de Manoel Carlos. O bairro virou “the one and only” exemplo de riqueza da cidade. Uma boa mentira, mas que serve a muitos propósitos. O problema é que não somos uma cidade de um lindo país desenvolvido e, mesmo que o Leblon nos engane, a maneira como se ostenta no Rio de Janeiro não é nada elementar. A questão por aqui não é o dinheiro que se tem, mas como se escolhe gastá-lo. E optar fazer isto no Leblon mexe com os humores cariocas.

O Leblon carrega o “estigma” terrível de ser repositório de desejos (e frustrações) e, mesmo que não seja nenhum paraíso, se passa por lugar de paz e tranquilidade. Ali ninguém precisar pagar suas contas, ninguém precisa de troco, a vida é passar a tarde comendo bem, comprando e desfrutando a beleza de existir. Em resumo: é o mito do petit bourgeois.

A consequência desta lógica? Mais um “fla x flu” para a listinha. De um lado, o bairro tem seus fãs: “mas bom mesmo nessa cidade só o Leblon, não é gente?” Por outro, encontramos cariocas, geralmente moradores de outros bairros similares, a demonstrarem o seu desconforto: “esse pessoal vem para cá achando que isso aqui é grande coisa, olha essa calçada! Para mim o Leblon só tem gente metida a besta.

Agora, percebam: o problema por aqui não é ser um pequeno burguês, metido a besta, “filhinho de papai”, é aparentar ser um. O carioca pode morar na Zona Sul, ter seu carro, ganhar seu dinheiro, não pode, contudo, ter orgulho disso.

Essa é a grande desmedida do Leblon: a clareza. Ser um bairro que se assume como rico em uma cidade partida e politicamente violentada. 

Cariocas apaixonados optam não apenas por um bairro de devoção, mas também por aquele que deve ser rechaçado. Talvez essa segunda escolha seja mais fundamental do que a primeira. Odiar o Leblon é mais definidor do que amá-lo. Esteja certo sobre isso quando falamos de Rio de Janeiro. O ódio é um terrível e eficaz aglutinador nos corações cariocas. O ódio e a hipocrisia, já que ninguém deixará de frequentar o lugar renegado, apenas se regozijará com reclamações e lamentos enquanto estiver por lá.

Mimetizando: escolha um bairro para amar e torça por ele
Carioquês: “o Leblon parece uma ilha, não é?”

4 comentários

  1. Oi, Rapha, tudo bem? Nós respondemos a uma tag lá no blog e indicamos você para responder também. 😉 Além de adorarmos seu blog, estamos com saudade das suas postagens. Tomara que seja um estímulo legal!

    Segue o link do nosso post, com a indicação: http://umfolego.com/2015/10/26/tag-versatile-blogger-award/

    Bjs, Vivi.

    1. Raphinadas disse:

      Viviane,

      Nossa! Obrigada!Eu também estou com muita saudade de escrever, mas (graças a Deus) estou preparando tantos roteiros que mal consigo respirar. Mas é um incentivo sim. Muito. Em breve novidades!
      bjs
      Rapha

  2. Angela de Assis disse:

    Gostei de sua visão e, como vc deve imaginar, opto pelas peculiaridades de alguns bairros da Zona Sul (Ipanema, Leblon, Jardim Botânico, Copacabana, Flamengo, Botafogo), do Centro da Cidade e da Barra da Tijuca, bairro americanizado com tons cariocas. Só que isso é minha história pessoal, cheiro de passado e histórias….. muitas histórias! Pensando bem, opto pelo Rio de Janeiro…..rs

  3. Mônica Hiromi disse:

    Perfeito!
    Eu escolho amar o Leblon, assim como amo o Jardim Botânico, a Gávea, as Laranjeiras….
    Escolho torces para que as calçadas de todos os bairros, da Zona Sul à Zona Norte, possam, um dia, estar limpas e lisinhas (ou com alinhamento perfeito das pedras portuguesas), como as de um país desenvolvido. Aliás, escolho que, um dia, o país se torne de fato desenvolvido e que a educação e o senso de coletividade do seu povo acompanhe esse desenvolvimento. Ah, como é bom sonhar… Sem perder a esperança do sonho se tornar realidade. Quem sabe um dia, quem sabe um dia…

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