Entrevista com a Autora do Livro “Mulheres Viajantes”

SERRANO, Sónia. Mulheres Viajantes. Lisboa: Tinta da China, 2014.

Sónia Serrano é lisboeta com ascendência espanhola. Formada em Direito, também trabalha com literatura (hispano-america e espanhola), como jornalista e, vale destacar, foi co-comissária na exposição no museu Berardo (vale uma visita) sobre a viajante (jornalista e escritora) AnneMarie Schwarzenbach. Do seu trabalho nesta exposição começa a história deste livro. Mas talvez de antes, já que a autora é também uma mulher viajante.

Seguem cinco perguntas para deixar você com mais vontade de descobrir o livro Mulheres Viajantes. 

1) Ainda é válido falar em literatura de viagem como algo em separado da Literatura?

Creio que nunca foi separado, a literatura de viagem remete-nos para um texto literário por excelência, sujeito aos mesmos cânones e gozando das mesmas possibilidades de narrativa – ficcionada ou não-, de liberdade e de subjectividade que a narrativa literária comporta. E em ultima instância o que distingue a literatura de viagem e a torna literatura é a sua qualidade, é esse o crivo por que tem de passar, mais do que a capacidade de descrever um lugar. Sob esse ponto de vista os guias de viagem seriam considerados literatura de viagem e, regra geral, não o são.

2) A senhora diz no Preâmbulo: “… é assombroso constatar que a questão do género e da suposta fragilidade feminina tenha hoje mais importância do que em épocas anteriores, quando a discriminação de género era mais evidente e notória.” (pg. 10) A senhora arriscaria alguma explicação para esse fenómeno?

O corpo, num género tão específico como a literatura de viagens, expõe-se mais, nem que seja apenas metaforicamente. Não era raro, em tempos mais recuados, pelo menos até ao início do século XX, a mulher que era autora de livros de viagem querer esconder o seu género. Um dos mais notáveis exemplo será o de Mary Kingsley que pretendia que o seu nome aparecesse apenas como M. H. Kingsley, não revelando assim que era uma mulher que vivia aquelas aventuras, “Não interessa ao público em geral quem eu sou desde que lhe conte a verdade o melhor que posso”. Havia um desejo de legitimação, claro, as pessoas tendiam a acreditar mais que tais aventuras só podiam ser vividas por um homem. Fruto da discriminação a que era sujeita a mulher, em certos casos, escondia a sua condição, ou então fazia o oposto e assumia que jamais poderia viajar e escrever como um homem.

O que quis frisar é que atualmente, apesar de uma maior igualdade de género, e de uma reivindicação mais aberta da identidade feminina são ainda assim produzidos estereótipos pelo público, pela crítica e por vezes até pelas próprias autoras que continuam a dar destaque à questão da fragilidade associada ao feminino.

3) A senhora se considera uma mulher viajante? Por quê?

Eu gosto de viajar, e mais do que isso, preciso de viajar. Dito isto, depois de ter escrito este livro percebo que ao lado destas mulheres sou uma principiante. Mas se o que distingue o espírito do viajante é a forma de olhar e de se deixar impregnar pelo que vê, mais do que propriamente do que coleccionar lugares, então tento imbuir-me desse espírito em cada viagem que faço. Se formos por aquela definição célebre do Paul Bowles, que remete para o espirito de errância, aí tenho limitações de tempo, lamentavelmente. Mas compenso isso voltando, sempre que posso, aos lugares que mais me marcaram.

4) De todos os perfis do seu livro, com qual mais se identifica? Ou qual deles fala mais alto ao seu percurso particular?

Citando Foucault no seu prefácio da vida dos homens infames, este livro é um catálogo de existências. Também estas mulheres aqui presentes não obedeceram a outros critérios que o meu gosto, os meus interesses e a relevância que lhes quis dar.

Falo de mulheres cujas vidas me fascinam. Se tiver que destacar apenas uma a escolha seria Annemarie Schwarzenbach, sobre quem produzi um trabalho mais extenso e cuja escrita me toca mais, embora curiosamente nem sempre os seus livros possam ser classificados como literatura de viagem no seu sentido mais restrito.

5) Através do seu livro, a senhora acaba por tecer uma história do ato de viajar ao longo dos séculos, independentemente do género. Peregrinos, aventureiros, jovens em busca de formação, turistas. O ato de viajar assumiu funções diferentes ao longo dos séculos. Foram tantas ressignificações, a senhora teria algum palpite sobre o como se configura o perfil da viajante da atualidade?

O viajante da atualidade está assolado por uma tecnologia que deixa pouco espaço à introspecção. Há inúmeros viajantes actuais, e falo essencialmente dos que querem partilhar as suas experiências através da escrita, que viajam e em paralelo alimentam blogs ou redes sociais relatando quase em direto as suas aventuras. Se isto traz a vantagem de ter a experiência imediata, também é verdade que retira tempo ao próprio viajante para digerir e reflectir sobre ela e só depois produzir o seu texto.

Goethe falava da inconsciência do agir e de que só na contemplação existia consciência. O acto de viajar envolve contemplação, isso pressupõe tempo. O que não significa que viagens curtas não possam dar livros muito profundos sobre um lugar, há exemplos disso.

Mas divago, respondendo à pergunta suponho que o viajante atual deve ser alguém que saiba encontrar o equilíbrio entre a vertigem da velocidade que a tecnologia nos oferece e a lentidão que o saber olhar exige.

 

Agradecimentos

Eu gostaria de agradecer à Sónia Serrano pela gentileza em responder essas perguntas. E, mais que isso, por escrever esse livro. Eu tive a felicidade de encontrá-lo durante uma viagem – parece coisa do destino! Considero-me uma sortuda por isso, e só posso desejar que o mesmo aconteça com quem se animar a comprá-lo.

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